13 de Maio e a Farsa da Abolição

13 de Maio e a Farsa da Abolição

Este artigo foi produzido com base no quadro ‘Sintoniza aí’ do Podcast Umbanda EAD, e foi publicado na Revista Umbandalogia, Edição Preto Velho: 13 de Maio e a Farsa da Abolição.

Em uma edição onde os Pretos Velhos são os homenageados, não poderíamos deixar de falar sobre o 13 de Maio, dia em que relembramos um marco histórico do Brasil: a Abolição da Escravatura.

Mas e aí, quais os meandros dessa data e por que ela gera polêmica? Vamos explicar de forma bem simples pra você.

O 13 de Maio não é sobre celebração!

13 de Maio de 1888 ficou marcado como o dia em que a Princesa Isabel assinou a “Lei Áurea”. O documento determinava a libertação dos escravos em território brasileiro.

Contudo, considerar a data como um ato de benevolência ou redenção da Coroa Portuguesa apaga toda a luta política que vem sendo travada desde o século XVI pela população negra.

O Brasil foi o país do continente americano que mais escravizou negros a levou como prática econômica e social. De acordo com o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, 4,86 milhões de escravos foram desembarcados no território brasileiro no período de 1501 a 1900.

Ao longo dos mais de 100 anos após a abolição da escravatura, fortalece no movimento negro uma ideia coletiva de aproveitar essa data para denunciar o racismo e a desigualdade no Brasil.

“O 13 de Maio significa, para nós, o momento de lembrar a luta política da população negra no Brasil, denunciar e apontar a possibilidade de mudanças” explica Juarez Xavier, jornalista, professor e ativista em entrevista exclusiva ao Podcast Umbanda EAD.

Esse pensamento se deve a partir da compreensão de algumas consequências dos 350 anos de escravização negra responsáveis por moldar o país. O jornalista cita três delas:

  • A consolidação de uma cultura em que as pessoas eram consideradas descartáveis;
  • A ideia da subcidadania, que são pessoas localizadas à margem da sociedade que não são contempladas pelos direitos humanos como deveriam;
  • Sociedade dividida em castas, baseada no Aparthaid, o regime de segregação racial implementado na África do Sul em 1948 e adotado até 1994.

Entretanto, todas essas situações são direcionadas a um grupo étnico racial específico: negros, indígenas e pobres, como comenta Juarez.

Neste 13 de Maio é possível refletir sobre a violência e a crueldade que foi a prática da escravização no país. 

Mas, além de enxergar os erros do passado, Juarez afirma que o movimento negro utiliza esse momento para dar ênfase à muitas coisas que ainda precisam ser mudadas. Entre algumas dessas situações, estão o genócidio da juventude negra, a segregação da mulher negra, a brutalidade racial e a indiferença de um setor social que se beneficiou pela escravização. 

“O racismo prejudica brutalmente a população negra, mas beneficia uma parte da população brasileira.” – Juarez Xavier

Pequenos passos que fazem a diferença

Se o racismo estivesse relacionado apenas à falta de informação de uma sociedade, bastaria dar aulas intensivas sobre o assunto para resolver o problema. Se fosse escassez de fatores de identificação, não haveria mais casos de racismo nos Estados Unidos após os dois mandatos do Barack Obama. Entretanto, as questões são muito mais complexas do que aparentam. 

“O racismo também possui um registro afetivo, e a opressão ingressa nesse campo mais profundo, que é a forma que o sujeito vê a si próprio” aponta Dr. Hédio Silva Jr,  Advogado, Ogã e Coordenador Executivo do IDAFRO, durante a entrevista. 

Hoje, ao andarmos pelas ruas, ou espaços privados, conseguimos ver jovens pretos ostentando penteados, acessórios e outros ornamentos de suas ancestralidades. Antes, ao frequentarem esses mesmos espaços, sempre existia o questionamento interno sobre seus traços e as cores de seus corpos.

“Ou seja, tem uma mudança, que é a mudança da relação com o próprio corpo, que é o sentir-se sujeito de direitos e essa coisa da estética” complementa Hédio.  

Podemos acompanhar esse avanço por meio da publicidade. Ao ligarmos a TV,  é fácil assistir comerciais com personagens e famílias negras, fator impensável para o movimento negro 40 anos atrás.

“Sou muito otimista e entendo que, da mesma forma que foi duro para o movimento negro construir um elo de corrente agregador, a macumba também vai encontrar um caminho como este”, desabafa o Advogado.

Para o Ogã, focar naquilo que nos separa, em vez de destacar os fatores que possuímos em comum, é uma perda de tempo:

“Enquanto a gente fica discutindo qual é a cor da vela que acende pra Ogum, estão colocando um ministro terrivelmente evangélico no supremo. Mais dia ou menos dia a macumba precisa priorizar aquilo que nos identifica para que possamos nos unir, e não as pequenas diferenças”.

Ficou com gostinho de quero mais?

Ouça ao episódio #52 “13 de Maio e a Farsa da Abolição” e confira esse bate papo completo entre Pai Rodrigo Queiroz, Dr. Hédio Silva Jr. e o professor Juarez Xavier!

Conheça nossos convidados:

Dr. Hédio Silva Junior

É advogado, mestre e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ex-Secretário de Justiça do estado de São Paulo e ativista do movimento negro. É por excelência o Advogado das Religiões Afro-brasileiras no Supremo Tribunal Federal (STF). Atualmente, ocupa o cargo de Coordenador executivo do IDAFRO – Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras.

Juarez Xavier

É jornalista, professor, vice-diretor da FAAC (Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design – Unesp Bauru), mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e ativista do movimento negro. Em 2019, no dia da Consciência Negra, o professor foi vítima de racismo e xingado de “macaco” e esfaqueado com um canivete quando saía de um supermercado.

Sarah Gomes

Copidesque: Sarah Gomes

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