Jogo de Búzios: prática religiosa ou atividade remunerada?

Não, você não vai encontrar nesse texto um passo a passo de como jogar búzios e isso não é o nosso intuito. Mas talvez, o que esteja aqui possa te introduzir ao que se refere as práticas divinatórias presentes na cultura afro-brasileira, bem como a compreensão da sua concepção como um serviço prestado e a distinção do seu caráter religioso.

No texto Orixá Orumilá e Oráculo de Ifá nós pontuamos as principais características dessa prática oracular que tem particularidades incomuns com o jogo de búzios, na ocasião também prometemos trazer um texto que o elucidasse sobre essa questão. Como promessa boa é promessa cumprida, pra comemorar a prorrogação do curso Candomblé – Religião, Cultura e Tradição trouxemos um pouco do que é exposto em aula junto de pesquisas sobre o simbólico e afamado jogo de búzios.

Merindelogun

O Jogo dos 16 ou Merindelogun como é chamado o jogo de búzios pelo povo de santo, é uma prática oracular que pode ser praticada tanto por homens como por mulheres, porém somente por sacerdotes ou iniciados no mistério do jogo. A esses recaí a função de conduzir o jogo, decifrar as caídas dos Odus e estabelecer isso ao consulente. Só para recordar, diferentemente dos búzios no Jogo de Ifá mulher não tem permissão para jogar, e se levarmos em consideração o que já comentamos aqui mesmo no blog, sobre o Candomblé se configurar como uma religião iniciada por mulheres, foi necessário um oráculo que permitisse a prática divinatória também as mulheres.

Pai Alexandre Cumino pincela sobre isso no curso Orixás na Umbanda, “os grandes Candomblés baianos são dirigidos por mulheres e era importante que elas tivessem um oráculo na mão, o Candomblé então recorreu ao jogo de búzios [..] tem uma lenda que diz que por intercessão de Oxum o jogo de búzios também pôde ser jogado pelas mulheres” comenta.

Como o nome mesmo já diz, nessa modalidade oracular os elementos usados são búzios (conchinhas) que tem um lado aberto e outro fechado.  Quem responde no tabuleiro de búzios é Exu, que segundo alguns mitos é melhor amigo de Orumilá o orixá da revelação. Exu é o mensageiro dos orixás e assim é  ele quem vai comunicar por meio dos Odus o que os orixás precisam que os seus filhos saibam ou façam.

“O caráter de Orunmilá era o destino, o de Exu, o acidente. Mesmo assim ficaram amigos íntimos”

Mitologia dos Orixás, pág. 76, Reginaldo Prandi

Como no Ifá, o jogo de búzios trabalha com 256 possibilidades. E o que isso quer dizer? bom, temos 16 búzios que serão lançados  no tabuleiro pelo condutor do jogo e para cada lançamento 256 possibilidades de caídas, dezesseis vezes dezesseis. Sendo assim, a forma como as “conchinhas” vão se dispor é o que vai definir a resposta do sacerdote ao consulente.

Para entender melhor, pensemos em 16 búzios que são os 16 Odus, para cada caída desses elementos temos um caminho do Odu. Esse caminho, vai ser o objeto de interpretação dos “olhadores de búzios” que detém o conhecimento necessário para trazer – por meio dos Odus – as respostas dos que o procuram. “Odu é cada uma das configurações formadas pelas combinações de 16 búzios, conforme estejam abertos ou fechados. Cada figura formada num lançamento está associada a formas divinatórias (Vallado, 2002)”.

Búzios, Candomblé e Popularidade

Em entrevista ao Canal Futura o sociólogo e pesquisador das religiões Reginaldo Prandi ressalta um fato interessante de se considerar sobre a popularização do jogo “seguidores das religiões brasileiras são em números, poucos adeptos, mas em expressão cultural são extremamente fortes”. Esse apontamento vai de encontro com a realidade dos búzios, que ao mesmo tempo que vive dentro dos ilês e é o oráculo máximo dessa tradição, também funciona como algo à parte, onde não é necessário ser iniciado no santo para consulta-lo.

“Uma coisa que foi muito importante para divulgar o Candomblé foi o jogo de búzios, onde você pode ter acesso a um serviço que ao mesmo tempo que é mágico, tem uma referência cultural e religiosa muito marcada pela presença dos terreiros de Candomblé no Brasil”

Reginaldo Prandi

Patricia Globo fala sobre essa questão no curso explicando que, como um serviço oracular ele pode ser prestado pelo detentor do saber, ou seja, também pelos pais e mães de santo e sendo assim, ele tem valor e é cobrado. “Meu pai de santo diz isso, muita gente vai jogar os búzios pra fazer terapia porque o oráculo vai funcionar se você tiver uma pergunta, as pessoas levam para o oráculo uma pergunta ou perguntas, que são as suas questões existenciais. Sendo assim, o oráculo, o jogo de búzios pode responder perguntas importantes sobre você, sobre as suas relações com o mundo, sobre as suas relações pessoais, sobre o seu trabalho e etc. Funciona assim pra quem é adepto e também pra quem não é” explica Patricia.

Por isso, é importante entender o jogo de búzios como algo presente na religião, que surge com ela, mas que também funciona fora desse contexto religioso e que é funcional para sociedade em geral, rico, pobre, intelectual, gente feliz e quem está passando por dificuldades. No livro “Os Candomblés de São Paulo” (Prandi, 1991) Pai Doda de Ossaim concluí:

“Todo pai-de-santo é psicólogo do pobre que nem sabe o que é psicologia, e é um psicólogo de muita gente fina de classe média, gente da universidade, que já fez muita psicoterapia, mas que precisa de um guru. O pobre vem mais por saúde, acaba se iniciando. O rico é mais sofisticado, tem problemas que o coitado do pobre não pode ter. Tem problema que é luxo, sabia?”

Mais sobre esse assunto como: o porquê da feitura dos Ebós por exemplo, é conteúdo para curso! E para entender todo esse contexto e ainda ter a tutoria da professora e ekedi Patricia Globo auxiliando em todos os questionamentos via fórum de dúvidas, só fazendo parte do nosso alunado mesmo! Então aproveita, que essa semana nós prorrogamos o prazo de inscrição para quem ainda não tinha se cadastrado! Candomblé – Religião, Cultura e Tradição é estudo, cultura e conhecimento!

Texto: Júlia Pereira

Consultoria: Prof. Dra. Ekedi Patricia Globo

Fontes de Pesquisa:

Curso Candomblé Religião Cultura e Tradição

Livro: Os Candomblés de São Paulo, Reginaldo Prandi, 1991.

Livro: Caminhos de Odu, Ed. Pallas, Agenor Miranda Rocha

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Cursos com inscrições abertas pelo
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