Rito de Iniciação e Sacrifício de Animais no Candomblé

“Todo mundo é de santo, mas só o iniciado é do Candomblé”

Prof. Ekedi Patricia Globo

Rodantes e Não-rodantes

Para adentrar na explicação sobre o rito de iniciação no Candomblé vamos tratar primeiro das “categorias” que distinguem seus adeptos. Para essa distinção leva-se em consideração as pessoas que entram em transe espiritual e os que não entram, e que dentro da tradição são chamados de rodantes e não rodantes.

Para os que entraram no transe bruto com o orixá ou “bolaram no santo” será dado a opção de escolher ser iniciado e deste modo fazer parte da tradição ou não. Cada pessoa tem a liberdade para optar pelo o que se sente melhor e ninguém é obrigado a passar pelo rito de iniciação a contragosto.

Já aos não rodantes ou os que não entram em transe, existem outros papéis que eles desenvolvem dentro do Ilê, e dentro de cada um, uma especificidade. Por exemplo, para os homens temos a categoria dos Ogãs (as mulheres não tocam atabaque dentro do Candomblé) e essa categoria pode ser dividida entre os Alabês que são os Ogãs responsáveis pelo toque dos tambores, os Axoguns que são os encarregados pelo sacrifício dos animais e os Ogãs de Sala que recepcionam os visitantes.

Para exercer esses cargos dentro do Ilê é necessário também ser suspenso pelo orixá, ou seja, ser escolhido pelo orixá que está tomando o corpo do adepto em transe a fazer parte da família de santo, exercendo essa determinada função.

Após isso, o visitante vai optar por fazer ou não a confirmação, que irá conferir à ele um grau na hierarquia do terreiro e por sua vez a sua função na família. A confirmação é um ritual mais simples e menor que o rito de iniciação a que os rodantes se submetem.

Rito de Iniciação

Uma das condições para a pessoa se iniciar no Candomblé é: ter o conhecimento sobre qual é o seu orixá. Essa informação é revelada por meio do jogo de búzios e o rito de iniciação demanda muito empenho e organização, isso é necessário, pois, normalmente o custo do rito de iniciação é bem alto e com a reclusão da pessoa durante um determinado tempo no terreiro a organização é algo imprescindível.

O rito de iniciação implica então no tempo em que a pessoa vai ficar reclusa no terreiro (que pode ser 1 semana, 15 dias ou 21 dias), nesse tempo, o Abiã (o não iniciado e/ou aquele que ainda não nasceu), ficará sob os cuidados dos irmãos de santo. O Abiã então aprenderá sobre os mitos, os ritos, os cantos, as orações, sobre a religião em si e vai promover um encontro profundo com os seus deuses, os orixás.

As obrigações subsequentes à iniciação, são feitas sucessivamente em intervalos de anos que podem ser de um, três e cinco anos ou de um, três, cinco e sete anos e isso vai depender da forma que cada terreiro vai tratar essa questão da “construção do orixá”.

Por fim, a pessoa que passa por todas as obrigações e ascende na alta hierarquia do terreiro se torna um Ebomi, que significa o irmão mais velho, e que segundo Patricia Globo é aquele “que sabe o que fazer e que conhece as coisas. Que sabe temperar a comida do orixá, que sabe as cantigas do orixá, que sabe cantar pro orixá, que sabe fazer os rituais e que ajuda o pai de santo”.

No Candomblé antiguidade é posto e nesse sentido os mais novos no santo devem reverência aos mais velhos. Enfim, nosso propósito aqui no texto é trazer de uma maneira geral um pouco do por quê do Rito de Iniciação ser algo fundamental para os adeptos do Candomblé e como isso se relaciona com o sacrifício animal.

“O Axé que alimenta os orixás, e por sua vez garantem, nosso sustento, está presente no sangue vegetal e animal”

Entendido a questão dos cargos do terreiro, vamos para o sacrifício de animais, que é um assunto muito polêmico, uma questão delicada de se tratar e que envolve muita falta de entendimento do público exterior da tradição vivida dentro dos terreiros de Candomblé.

Agora eu quero falar com vocês sobre o sacrifício de animais, quando nós pensamos em sacrifício de animais, sacrifício é uma palavra meio ruim, ela traz uma carga negativa. Mas, se pensarmos que raríssimos de nós somos vegetarianos, nós podemos começar olhar de outra forma, com um outro olhar..

 Ekedi e Prof. Patricia Globo

 

A tutora continua a explicação dando o exemplo das religiões antigas que ofereciam aos seus Deuses aquilo que propiciava a vida humana e nesse sentido era oferecido a melhor parte da colheita e a melhor parte do animal que servia de alimento.

De acordo com essas crenças, a oferta simbolizava a gratidão aos Deuses por tudo que eles tinham propiciado aos seus filhos e também uma forma de dizer para que continuassem fornecendo esse sustento. É nessa perspectiva que na tradição candomblecista oferece-se aos Orixás parte dos animais que irão ser preparados para o consumo da comunidade.

Sendo assim, em diversos rituais do Candomblé isso acontece, e talvez um dos maiores é o Rito de Iniciação. “O animal que vai ser sacrificado é escolhido a dedo. Ele é levado para o terreiro e vai ser lavado, cuidado, alimentado, vai ser bem tratado e há diversos rituais para esse sacrifício, ele acontece com o mínimo de dor possível, mas ele acontece” pontua Patricia.

Ela fala também que – de uma maneira simplificada – por trás dessa oferta está a ideia de que a energia vital que move o mundo está nos orixás, e essa energia está presente no sangue verde das folhas (KOSSI EWE, KOSSI ORISA/Sem folha não há Orixá) e também no sangue dos animais.

Sendo assim, esse Axé alimenta os orixás, que por sua vez, nos alimentam garantindo assim o sustento da vida. Aos orixás é preparado as vísceras, pés, cabeças e eventualmente asas, e o restante é comido pela comunidade durante as festas dos terreiros. Patricia destaca durante o curso que existem estudos sobre comunidades do nordeste do país que tinham a comida dos Ilês como a única fonte de proteína para os mais pobres.

 

Tem sacrifício sim, o animal é morto sim, por causa da questão do sangue como eu disse, mas não há crueldade, não é uma coisa indiscriminada. Em geral são poucos animais, não é uma infinidade de animais, é ritual. O animal é respeitado, passa-se por um ritual e o mais importante não há desperdício

Patricia Globo, tutora do curso Candomblé – Religião, Cultura e Tradição

As festas em que se celebra a “saída do orixá” que resumidamente é quando a pessoa que passou pelas obrigações e iniciações vai ser apresentada, e o orixá dessa pessoa vai dançar pela primeira vez – após o período de reclusão – para toda a comunidade, também é chamada de saída do Yaô.

Cada uma das obrigações pela qual o Yaô passará até atingir o grau de Ebomi terá as suas especificidades. Em última instância, cada terreiro é único e vai tratar essa questão da maneira que for melhor a seus adeptos e a tradição que se segue. Dentro disso, existe também o período de preceito depois de cada uma das obrigações, e preceito, é um dos assuntos da 8º aula de Candomblé, Religião, Cultura e Tradição, curso que a plataforma Umbanda EAD traz à todos que desejam saber mais sobre essa cultura, que tanto contribui também para a Umbanda.

Durante os estudos é tratado também sobre como o Candomblé, se consolida no Brasil, quais são seus costumes, tradições, ritos e etc, e tudo isso é posto no curso por quem não só conhece essa tradição por meio de uma vida de pesquisas, mas também por quem vive o Candomblé em sua essência.. De dentro do Ilê para o mundo, quem traz a mensagem do povo de santo é a Tutora, Prof. Dra. e Ekedi Patricia Globo. Saiba mais sobre a sua vida no texto: Estudo, pesquisa e vida religiosa. E CLIQUE AQUI para conhecer o cronograma do curso.

 

Texto: Júlia Pereira
Consultoria: Prof. Dra. Ekedi Patricia Ricardo Globo
Imagem: Livro – O Sagrado, a Pessoa e o Orixá. Roberta Guimarães

 

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obs: os links desse texto estão sujeitos a alteração em razão da disponibilidade do curso e/ou produto

 

6 comentários em “Rito de Iniciação e Sacrifício de Animais no Candomblé

  1. Esse texto me deixou muito mal.
    Sou umbandista.
    Vegetariana por amor aos animais.
    Acabei de fazer o curso Orixás da Umbanda com o mestre Alexandre e adorei.
    Não posso e não consigo pensar em sacrifício animal.
    Sinceramente me revolta e me faz chegar a conclusão que neste mundo não há amor.
    Amor no sentido da palavra.
    Amor por nossos irmãos animais.
    AMOR DIVINO

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