Gisele Cossard, a Mãe de Santo francesa

Gisele Cossan Binon, hoje aos seus 92 anos exibe uma trajetória de vida um tanto quanto inusitada. Nascida em  berço católico, a filha de pai professor e mãe pianista foi criada com os prazeres de uma família de classe média alta.


Sua vida deu-se em Tanger, cidade Marroquina, e logo em seguida seguiu-se para a ponta extrema da África, quando seu pai foi convocado pelo governo Francês para trabalhar nessa região, que na época era um protetorado da França.

Destes lugares a Omindarewá (água límpida – nome de iniciação de Gisele), não tem recordação, a não ser a coleção de objetos e histórias que o pai debruçava com fascínio a ela.

Sua família viveu entre os conflitos da Segunda Guerra. Participando da resistência francesa, fornecia informações aos militares sobre posições de soldados alemães.

Nesse período, teve seu pai preso e deportado para a Alemanha e viveu situações precárias, chegando a passar fome.

Vencido a luta de sobreviver a um período de devastação alemã, casou-se e foi morar por oito anos na África. No ano de 1956  seu marido foi nomeado embaixador da França no Brasil, e foi assim que ela teve o primeiro contato com a cultura brasileira.

Já em solo brasileiro há informações de que Gisele teria sido convidada por uma empregada iniciada no terreiro de Pai Joãozinho da Goméia a visitar o templo. Porém, em entrevista realizada pelo Jornal Extra ela diz ter conhecido os terreiros das favelas por intermédio de Abdias Nascimento, amigo que fez no Teatro Experimental do Negro. Na entrevista relata, que permaneceu um bom tempo como espectadora até que um dia teve contato com os orixás e resolveu se iniciar na religião.

A relação com o marido já não fluía bem, o companheiro tinha aversão a cultura brasileira e isso já incomodava-a. Foi então, que Gisele resolveu retornar a França e apresentar sua tese de doutorado sobre Candomblé.

Mais tarde, a saudade do Brasil e dos terreiros a fizeram pisar novamente em solo brasileiro e dessa vez para ficar. Sabido da morte de Pai Joãozinho da Goméia, Gisele se viu sem esperança para continuar sua fé. Porém, por intermédio de um amigo conheceu Pai Balbino Daniel de Paula, que foi quem convenceu a Ialorixá, abrir um terreiro em sua casa.

Gisele conta um episódio em que ela estava de cama por conta de um grave acidente e Pai Balbino foi visitá-la. Na ocasião, levou oferendas e elementos do seu Orixá, Omindarewá mesmo sem poder levantar da cama, começou a dançar e manifestar Iemanjá.

Tornou-se efetivamente Mãe de Santo em 1980, quando se aposentou do serviço público francês. O terreiro onde Gisele trabalha, o Ilé Asé Iya Atara Magba conta atualmente com mais de 300 filhos de santo. A escritora, antropóloga e ialorixá possui diversos livros, artigos e estudos publicados no campo da religiosidade afro-brasileira.

A vida de Gisele simboliza a transcendência de um campo espiritual visto antes como restrito a raízes africanas e afro-brasileiras.

Para Gisele, todas suas manifestações foram possíveis, vividas e tornadas reais. Mesmo sendo negada inicialmente pela comunidade, a mulher de pele clara, olhos azuis, que relata ter vivido duas vidas, a de diplomata e a de mãe de santo, continua desenvolvendo aos seus 92 anos, trabalho com búzios e festas tradicionais no terreiro localizado em Duque de Caxias – RJ.

Texto: Júlia Pereira

Imagem: Retirada do site Ominderawa.com

2 comentários

    1. Olá Lucas Barbi,
      Obrigada pela visita e apontamento. A matéria visa realmente contar em como uma estrangeira consolidou-se como Mãe de Santo. Porém, em nenhum momento é omitido a religião pela qual Gisele fincou seus estudos (“Foi então, que Gisele resolveu retornar a França e apresentar sua tese de doutorado sobre o Candomblé“) e fé.

      Curtir

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